Raiz Forte recebe Exposição Imanência

A visitação é aberta ao público de quarta a sábado até 18 de maio. Escolas ainda podem agendar visita de alunos.

 

O que o seu cabelo diz sobre você? A pergunta é como ir puxando a linha da pipa, ir puxando, puxando, puxando… Há sempre outra questão além da primeira a ser discutida, há sempre mais, por trás, acima, por baixo, entre. Discutir o racismo praticado nas escolas – e fora delas – sempre será uma tarefa complexa, principalmente ao serem consideradas suas manifestações mais arraigadas: da menina que não se sente à vontade para soltar os cabelos porque são crespos à criança que não encontra um lápis “cor de pele” que a represente. No Projeto Imanência, para desconstruir estereótipos racistas historicamente construídos, o primeiro passo é olhar para si mesmo – não para o próprio umbigo, mas para o próprio cabelo – e refletir, de maneira positiva, sobre a identidade que ele carrega, o lugar de fala de quem o possui, a história que ele conta através de suas transformações: crespo, alisado, black, trançado, preso, solto, curto, longo… A proposta é perceber a si mesmo por entre os fios e ser capaz de voltar a dar linha para que a pipa voe cada vez mais alto, livre, sabendo de onde vem.

 

Fotos: Juane Vaillant

Sob essa perspectiva, conduziu-se a primeira etapa do Projeto Imanência, a Imersão, durante o mês de março. Uma vez imersos, professores e educadores que participaram do processo co-criaram, a partir de seus próprios relatos e experiências, um rico material que, agora, é apresentado para a comunidade através da Exposição Imanência. A mostra, voltada para o público em geral e com visitação gratuita até 18 de maio, sempre de quartas a sábados, das 8h às 12h e das 14h às 18h, abriu suas portas na última terça-feira, dia 18 de abril, no Raiz Forte Espaço de Criação, Centro de Vitória. O objetivo é sensibilizar os visitantes para a temática étnico-racial e levá-los a experimentar parte do que foi desenvolvido na primeira etapa do projeto.

 

Os visitantes puderam experimentar um pouco do que surgiu na Imersão. “O conteúdo dessa exposição não tem obras, mas histórias de vida, experiências dos educadores que passaram por aqui. Muita gente está expondo aqui hoje, ao mesmo tempo, eu vejo muitas outras histórias representadas ali, acho que a gente está falando de algo muito maior do que essas 33 pessoas”, explica a designer e idealizadora do Macunaímãs, Juliana Lisboa.

 

A educadora Mara Pereira foi uma das participantes de todo o processo e levou seu filho de cinco anos, Nestor, na abertura da exposição. Ao tocar cabelos crespos sem vê-los, em um dos ambientes da mostra, Nestor dispara: “É uma boneca preta com o cabelo muito perfumado”. “A gente conversa muito sobre as questões raciais com ele, de acordo com a idade que ele tem, principalmente a partir da literatura e da arte”, conta Mara, que reforça que essa exposição atinge um público de todas as faixas etárias e que é fundamental que as pessoas levem suas famílias e seus amigos.

 

“Eu tenho uma preocupação muito forte com a forma com que o racismo é tratado ou como não é tratado nas escolas, mas sobretudo em família, porque é uma experiência que eu tenho vivido – como educar uma criança negra sabendo que a gente vive numa sociedade racista, e, ao mesmo tempo, penso em como educar uma criança branca numa sociedade como a nossa, estruturalmente e institucionalmente racista”, pontua Mara.

 

O estudante de Ciências Sociais Timóteo de Oliveira, que também participou do processo, compartilhou com os presentes sua experiência pessoal e suas impressões sobre o tema e a exposição, a convite da equipe. Timóteo lembrou Sérgio Vaz: “Nascer negro é consequência, mas agir como preto é consciência. Você se torna um preto e eu acho que isso é um parto; o meu parto foi muito violento. Teve um professor na Ufes que foi racista durante a aula em que eu estava e, ali, eu me compreendi preto. O que me angustia é que esse foi um mecanismo muito violento. Será que esse é o único mecanismo que nós podemos utilizar para nos tornarmos pretos? Será que a gente não pode pensar em dispositivos positivos para nossa criança negra? Será que nossa criança só vai saber que é negra porque sofre racismo?”, questiona.

 

A valorização do fenótipo negro é um dos objetivos do projeto. Para Timóteo, a Exposição Imanência realmente traz a possibilidade de crianças e jovens remontarem sua negritude de um modo mais positivo. “Eu me vi nisso tudo, me vi produzindo mecanismos positivos para fazer uma criança negra se identificar, para ela poder realmente nascer e ter um parto positivo. Não quero que as crianças negras e os jovens, sobretudo, passem pelo que eu passei”, afirma o estudante.

 

 

Representatividade e multiplicação do olhar

A proposta do Imanência, segundo a educadora e uma das mentoras do projeto Tatiana Rosa, passa pela multiplicação de olhares sobre a discussão das relações étnico-raciais, que estão materializadas e problematizadas na exposição: “Não adianta nada você se propor a valorizar e pensar em fortalecer o outro se você não está estabelecido e forte consigo mesmo. A nossa articulação foi pensar as pessoas e, a partir delas, co-criar para que outras também acessem essas questões”.

 

Quem se identificou de pronto com a exposição foi o produtor cultural Diego Nunes. Ele conta que a instalação com cabelos crespos o fez lembrar dos tempos da escola, quando todas as pessoas pareciam ter cabelos lisos ou “deveriam” ter e como isso significava um problema para ele. “Aqui, na exposição, fiquei tentando sentir qual seria o cabelo mais parecido com o meu, foi imediato isso! A experiência tátil de um cabelo similar ao meu e o fato de ele estar em uma galeria é um negócio bem forte, ao mesmo tempo em que é óbvio que tem que estar. Está na hora mesmo de a gente se reconhecer, se integrar e valorizar tudo o que vem da gente. Os depoimentos também me tocaram bastante”, diz Diego.

 

O formato interativo e multimídia da mostra fortalece, ainda, o propósito de tornar mais acessível e convidativa a discussão sobre o tema. Segundo a professora de Comunicação Social Vilma Neres, a escolha foi muito acertada, principalmente porque estamos na era das novas mídias, na qual as pessoas leem um texto ao mesmo tempo em que ouvem música e veem uma imagem estática e outra em movimento.

 

“Utilizar recursos multimídia só fortalece a discussão, e a gente consegue atingir o público de crianças e adultos. É um tema complexo, difícil, que causa dor para as pessoas negras, sobretudo para as mulheres. Se a gente aborda de uma forma menos pesada, conseguimos melhor entendimento das crianças brancas e negras, que valorizem os colegas e respeitem a forma de seu cabelo, a cor de sua pele”, destaca Vilma.

 

Provocar mais do que responder

Tanto a fase da Imersão quanto a Exposição foram pensadas a partir de um roteiro metodológico, formado pelos momentos: Sente, Vê, Remonta e Deixa. A tônica do processo em todos os momentos foi mesclar interatividade, co-criação e provocação, a fim de levar à reflexão. Mais do que dar respostas, o projeto previu problematizar as relações étnico-raciais.

 

“Algumas pessoas vieram para a Imersão com uma expectativa de responder a dúvidas e questões que elas tinham, e a gente devolveu com mais perguntas”, conta Juliana. “E é justamente isso que a gente quer promover: a reflexão e o debate. Não são questões que envolvem só vocês, são questões que são nossas também. Não há receita, a educação, a vida, não tem receita”, complementa Tatiana.

 

Ainda segundo a educadora, um dos objetivos é a abertura de espaço para falar sobre as questões que envolvem a identidade negra e o racismo. “A gente sente muito ao escutar o outro, ao respeitar a fala do outro. Aqui, eu penso que é também um espaço de identificação, de encontro de histórias, mas é também um espaço de fala e de escuta. Várias pessoas precisam acessar isso e discutir, porque a prática racista não envolve somente o negro, mas também quem pratica ou reproduz o racismo”, pontua.

 

As mentoras do Projeto Imanência ressaltam, ainda, a importância de abrir a exposição em uma data distante do mês de novembro, quando é comemorado oficialmente o Dia da Consciência Negra. “A gente está falando da história de vida de mais de 54% da população brasileira, e não é uma história que cabe somente em um mês, como acaba acontecendo no ambiente escolar. É interessante a gente deslocar essa discussão, que deve ser cotidiana e não pontual”, afirma Tatiana.

 

A educadora e também mentora do projeto Sonia Rodrigues aproveitou para convidar os presentes a voltarem com seus amigos e familiares. “O processo de visita é muito participativo, produtivo, e eu tenho certeza de que essas pessoas não vão voltar as mesmas para casa”, diz.

 

A expectativa é que parte do público visitante seja de alunos levados pelos educadores que participaram do processo de Imersão. Com as visitações, espera-se, além de oferecer meios para se colocar em prática a Lei nº 10.639/2013, também sensibilizar os demais membros da comunidade escolar a repensarem saberes e percepções sobre a temática étnico-racial e sobre o racismo e, dessa forma, colaborar para tornar a escola um espaço mais democrático e menos segregador.

 

Visitação agendada

Além da presença espontânea do público, professores da educação formal e educadores de iniciativas socioculturais diversas interessados em proporcionar uma reflexão sobre a temática étnico-racial para seus educandos ainda podem solicitar uma agenda de visitação na Exposição Imanência. As visitações de turmas contarão com a presença de mediadores culturais que conduzirão um roteiro lúdico e estético-político por seus espaços e instalações. O agendamento de turmas é gratuito e ainda pode ser feito através de um formulário on-line (https://goo.gl/forms/XCeqp4nBz5aqv6m52). No formulário, deverão ser  informados o nome da escola ou instituição, o ano escolar ou faixa etária da turma, nome e telefone de contato do educador/acompanhante responsável. O limite para cada turma é de 40 pessoas, incluindo acompanhantes.

 

O projeto Imanência é resultado da parceria entre o Raiz Forte e o Macunaímãs e conta com recursos do Fundo Estadual de Cultura do Espírito Santo, por meio de projeto contemplado pelo Edital nº 002/2016 – Valorização da Diversidade Cultural, e apoio da Secretaria de Estado de Direitos Humanos, Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (Neab-Ufes) e do Programa Afro-Diáspora, da Universitária FM 104.7.

 

SERVIÇO

Exposição Imanência

Até 18 de maio

Entrada gratuita e aberta ao público em geral

Para agendamento de visitas: https://goo.gl/forms/XCeqp4nBz5aqv6m52

Visitação de quarta-feira a sábado, das 8 às 12h e das 14 às 18h

Local: Raiz Forte Espaço de Criação – Escadaria do Rosário – Centro – Vitória

 

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