Imersão Imanência: criação coletiva para pensar o racismo

Nos dias 16, 18 e 23 de março, educadores participaram de vivência que se desdobrará em uma exposição no mês de abril

Trocas de experiências, compartilhamento de histórias e criação coletiva. Isso foi um pouco do que se deu na Imersão Imanência, atividade encerrada na última quinta-feira (23) e que reuniu cerca de 30 participantes para refletirem sobre o racismo escolar. Partindo da discussão sobre a importância da estética capilar para a estética cultural negra, a Imersão foi a primeira etapa do Projeto Imanência, iniciativa que faz uso da co-criação para evidenciar a relevância do fenótipo negro na formação da sociedade brasileira e, dessa forma, contribuir com o combate ao racismo.

A Imersão Imanência contou com mais de 80 inscrições. A seleção foi dividida em duas turmas formadas, em sua maioria, por profissionais atuantes na educação formal e não formal. Ao longo de oito horas, eles vivenciaram uma metodologia de criação horizontal que buscou levantar o como cada pessoa está implicada com o racismo nas diferentes relações sociais e nos distintos espaços institucionais que ocupa. Na vivência também foi possível debater conceitos como identidade, subjetividade, negritude e branquitude. As ações do Projeto Imanência estão sediadas no Raiz Forte Espaço de Criação, situado na Escadaria do Rosário, no Centro de Vitória.

Ampliando o pensamento

Muitos dos participantes buscaram a Imersão atraídos pela possibilidade de discutirem as relações étnico-raciais. Foi o caso da psicóloga Janaína Fernanda Pereira Coelho (imagem ao lado):  “foi uma oportunidade de estar em contato com pessoas que também queriam discutir essas questões relacionadas à negritude e ainda com uma formação diversa e com várias trajetórias de vida. Entrar em contato com pessoas que querem inventar novos jeitos de se relacionar, novos modos de trabalhar e de discutir a questão, me deu uma esperança”.

Janaína também destacou a lógica horizontal e de construção coletiva da Imersão: “esperava receber uma formação no sentido mais tradicional e formal, a proposta da Imersão demandou uma postura de co-construir o processo e apostou na vivência de cada um. Foi um encontro de pessoas muito heterogêneas, de vários lugares e com várias histórias. Isso gerou um bom encontro e provocou cada um de um jeito. Essas provocações e estranhamentos produzem deslocamentos que expandem o nosso modo de pensar e de se relacionar”.

Carente por esse tipo de discussão em sua graduação, a estudante de jornalismo Lorraine Paixão foi outra participante. Segundo ela, algo que chamou a atenção na Imersão foi o espaço de escuta: “essa chance das pessoas poderem compartilhar suas histórias e sem nenhum pudor, poderem contar um pouquinho de suas vivências. Pude perceber que não estou sozinha com as minhas angústias. As histórias contadas principalmente em relação ao cabelo são as que mais me tocam, pois também faz muito parte da minha transição, da minha formação enquanto mulher negra, passei por essa fase de perceber o meu cabelo e aí me perceber como negra”.

Por uma escola mais colorida

Para o professor de Sociologia Jefferson Gonçalves Correia, na escola ainda são poucos os parceiros e interlocutores que conversam sobre o racismo e sobre as relações étnico-raciais e que a Imersão serviu para despertá-lo para essa temática de inúmeras maneiras. “Fiquei muito emocionado na Imersão, pois mexeu muito com a minha memória e deu uma revirada nas minhas expectativas. Apontou caminhos, embora acredite que, dentro do espaço formal escolar, a margem de manobra é ainda um tanto pequena, mas uma iniciativa como essa fortalece a gente. Foi muito interessante pela linguagem, pela maneira como foi conduzida, e pelas próprias pessoas que estavam lá, como eu, sedentas por esse tipo de articulação”.

A professora de educação infantil Tamiris Souza de Oliveira inscreveu-se na Imersão Imanência a fim de ampliar seu repertório de discussões sobre racismo escolar e para buscar possibilidades de enfrentamento a essa realidade. “É evidente que existem muitas práticas racistas e preconceituosas dentro da escola e, enquanto professora, tenho a responsabilidade de contribuir para superá-las. A partir de tudo que a gente discutiu, a Imersão nos deu motivação para buscar uma escola com uma representatividade mais colorida. Temos que ser sensíveis a essa questão no cotidiano da escola, seja numa fala, seja num comportamento, não temo como isso passar despercebido”.

O lúdico e a exposição

Recém graduado em licenciatura no curso de Ciência Sociais, Victor de Jesus (imagem ao lado) destacou a diversidade de repertórios de práticas de ensino e de aprendizagem presentes na Imersão e disse que nunca havia pensado na possibilidade de usar, por exemplo, ímãs para refletir sobre as relações étnico-raciais na sala de aula: “vários e outros fazeres pedagógicos e educativos estavam nesse processo. Isso é o mais interessante, o processo de desenhar, de ouvir, de assistir vídeos, de disponibilizar  livros, de criar e fazer. Em todos os momentos tinha uma proposta pedagógica plausível de ser aplicada nos processos educativos formais e não formais”.

Durante a Imersão, os participantes foram co-criadores, ou seja, colaboraram com produção de conteúdos visuais e multimídias que farão parte da próxima etapa do Projeto: a Exposição Imanência. Entre essas produções coletivas estão personagens confeccionados sobre uma manta imantada que foram criados a partir de relatos coletados entre os próprios participantes. A Exposição Imanência estará aberta de 18 de abril a 18 de maio deste ano e buscará aproximar os processos artísticos do cotidiano escolar e das pessoas em geral.

Para Victor, é difícil saber o quanto a Exposição irá tocar as pessoas, pois depende do quanto elas estão abertas para o tema: “fazer com que pensemos os nossos privilégios e não privilégios raciais é uma questão potente para nos conscientizarmos sobre o nosso lugar de fala. Espero as pessoas enxerguem mais os lugares que ocupam racial e politicamente e, a partir disso, contribuam com essa luta que é todos. Uma sociedade democrática e justa passa pela questão racial. Enquanto essas diferenças trouxerem privilégios para alguns e problemas e marcas para outros, ainda não podemos falar de uma sociedade democrática e justa”. 

Raiz Forte + Macunaímas

O Imanência é resultado da parceria entre outras dois projetos: o Raiz Forte e o Macunaímãs, e todas as suas ações acontecerão no Raiz Forte Espaço de Criação, que fica situado na Escadaria do Rosário, no Centro de Vitória. Esta iniciativa conta com recursos do Fundo Estadual de Cultura do Espírito Santo, por meio de projeto contemplado pelo Edital nº 002/2016 – Valorização da Diversidade Cultural, e conta com o apoio da Secretaria de Estado de Direitos Humanos, do programa de rádio Afro-Diáspora e do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da Ufes.

Clique AQUI e saiba mais sobre o Imanência.

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