Exposição Imanência aposta na arte-educação

Além do público espontâneo, a mostra recebe visitas de turmas escolares e estimula a discussão étnico-racial a partir de recursos lúdicos e multimídia.

 

Yasmin gostou de colocar os dedos na caixinha e disse que a sensação é a mesma de quando toca seu próprio cabelo. A amiga comenta: “Olha, é seu cabelo que tá aqui dentro”. Luana tirou um papelzinho da bacia, leu uma história parecida com a sua e guardou: “Essa história é minha. Sou eu aqui, professor”. Juliana criou um desenho de ímã que ficou a cara dela e o levou para casa.

 

Inaugurada no dia 18 de abril, no Raiz Forte Espaço de Criação, a Exposição Imanência traz uma proposta educativa para a temática étnico-racial através da arte, voltada para o público de todas as idades. A mostra, aberta de quartas a sábados até o dia 20 de maio, parte da estética capilar para discutir o racismo e a valorização do fenótipo negro e recebe turmas escolares mediante agendamento, além de visitantes espontâneos.

 

Provocados pela mediadora cultural Janaina Coelho, Yasmin, Luana, Juliana e os demais alunos do Centro Salesiano do Adolescente Trabalhador (Cesam) que visitaram a exposição na última quinta-feira (27), cuja faixa etária vai de 15 a 17 anos, contam que imaginavam encontrar quadros e pinturas quando partiram para a Exposição Imanência. A visita, portanto, os surpreendeu. “Eu não sabia que existia uma exposição sobre esse tema, gostei bastante, deu para aprender muita coisa. Meus amigos da escola fazem muita brincadeira em cima desse assunto”, diz o estudante Valdir Moreira Júnior, de 16 anos.

 

Para o professor de Língua Portuguesa William Weber, que acompanhou os alunos, transpor as paredes da sala de aula fortalece a discussão e aponta para outras formas de ensino, a partir das quais os alunos podem encontrar depoimentos e se identificar. 

 

“Espaços assim são fundamentais. Eu entendo que a educação com lousa e pincel é muito importante, porém, aqui, tem uma história a ser contada por pessoas que viveram e vivem essa história. É muito mais acessível a abordagem da questão étnico-racial, por exemplo, a questão do racismo, que muitos do Centro já vivenciaram. Também é importante para a identificação de uma forma positiva, a exemplo dos depoimentos de mulheres falando como se identificaram como negras, e é tão importante para as meninas verem isso e se encontrarem como mulheres – mulheres negras – e afirmarem a posição delas na sociedade”, ressalta William.

 

Um dos espaços de destaque, dentro da proposta educativa e co-criativa da Exposição Imanência, é voltado para que os visitantes criem personagens feitos de ímãs, com os quais podem brincar trocando os cabelos, as partes do rosto e os acessórios. “O Macunaímãs é uma estratégia. Eu me lembro de um menino, na Marcha do Orgulho Crespo, que veio buscar o Macunaímãs e se identificou com o ímã feminino. Ele ia falando e montando, ou seja, assim como, para ele, trouxe uma questão de gênero, isso também acontece em relação ao cabelo”, aponta a arte-educadora Tatiana Rosa.

 

A estudante Luana Pacheco, de 16 anos, por exemplo, fez uma personagem com o “cabelo bem grande”, como descreveu. “Essa foi uma das primeiras exposições em que eu me senti bem, onde eu senti liberdade para falar, mostrar a minha opinião, ouvir coisas que tenham a ver comigo. A menina que não gostava do cabelo dela, que alisava, também tem a ver comigo, e outras histórias que se parecem com a nossa e a gente nunca viu numa exposição. Eu amei, é importante discutir esse assuntos porque muita gente fica com dó, trata como coitadinho, mas não, é algo que realmente merece um espaço para ser debatido”, afirma Luana.

 

O aspecto multimídia da exposição também aguçou os sentidos dos visitantes para o tema, ora apenas sentindo através do toque, ora só ouvindo, só lendo, assistindo ou colocando a mão na massa. Para Stephany Mont-Mor, de 16 anos, o momento mais interessante de toda a visita foi o dos vídeos com depoimentos.

 

“Eu pude perceber que a maioria dos relatos fala sobre aceitação – do cabelo, do corpo, da cor – e dos preconceitos das pessoas, que, muita vezes, são velados. Tem muita coisa no dia a dia que acontece que as pessoas não veem que é preconceito, e aqui eu achei muito interessante porque as pessoas que não sabem sobre isso acabam percebendo. O que eu gostei foi mais da parte dos vídeos, de ouvir as pessoas falando sobre a vida, sobre as coisas pelas quais elas passaram”, diz Stephany.

 

 

O lúdico e o interativo para educar

Segundo a arte-educadora Tatiana Rosa, a proposta da Exposição Imanência é aproximar as pessoas da temática étnico-racial por outros vieses. “Eu não diria leveza, mas é uma estratégia de diálogo a partir dessa abordagem, a partir do que você coloca de si mesmo – porque não é nada fácil você se repensar. Não é leve, mas é estratégico você se repensar para se reconstruir e tentar projetar alguma coisa a partir disso”, aponta.

 

A ludicidade, na exposição, se coloca entre espaços de fala e de escuta, de modo que quem interage com o conteúdo proposto também é convidado a criar novos materiais e a deixar suas próprias percepções. “É um lúdico estratégico, que convida o outro para participar da brincadeira, que não tem uma forma fechada. Quem vê os personagens, os desenhos que o pessoal da imersão construiu, pode mexer naquilo, mudar, trocar o olho, o nariz, a boca, o cabelo. Isso não está fechado, como todo mundo – todo mundo está em processo de transformação -, como a vida propriamente”, explica a designer idealizadora do Macunaímãs, Juliana Lisboa.

 

A expectativa é que o “aprender brincando” se desdobre em mais ações educativas para o debate sobre a questão racial e ganhe efeito multiplicador. O professor William, por sua vez, já espera provocar novos questionamentos para a continuação da discussão em sala de aula e pensar nas possíveis relações com sua disciplina, a Língua Portuguesa.

 

“As palavras têm peso e poder. Os adjetivos que eu uso, os substantivos que eu coloco, a forma como eu uso um verbo para expressar uma ação sobre aquela pessoa definem muitas coisas. A própria palavra ‘crespo’ se tornou algo ruim, quando são apenas tipos de cabelo. Não existe ali uma definição de ruim, é nossa cultura que determina isso. Existe esse poder cultural das palavras e, quando a gente começa a quebrar isso, a gente quebra a cultura do racismo que existe em cima daquela palavra, traz uma nova significação, uma nova forma de ela ser utilizada. Essa mudança de pensamento tem tudo a ver com mudar nosso vocabulário e nosso jeito de falar”, destaca o professor.

 

Com o objetivo de incentivar o trabalho de mais educadores em relação à temática, a exposição ainda disponibilizará seu conteúdo audiovisual no canal do Raiz Forte para ser utilizado em salas de aula e acessado por mais pessoas.

 

Igreja do Rosário

As turmas escolares que visitam a Exposição Imanência participam também de uma visita à Igreja Nossa Senhora do Rosário, localizada no topo da escadaria do Rosário, bem próximo ao Raiz Forte Espaço de Criação. Os visitantes são convidados a conhecer a história da igreja, que tem forte relação com a comunidade negra e teve sua construção iniciada em 1765 por negros. A visita é uma parceria da Exposição Imanência com o Projeto Visitar, realizado pela Prefeitura Municipal de Vitória e que conta com visitas monitoradas pelo Centro Histórico da capital.

 

Para o agendamento de visitação de turmas escolares de até 40 pessoas à Exposição Imanência, o educador responsável deve preencher o formulário através do link: https://goo.gl/forms/XCeqp4nBz5aqv6m52.  

 

O projeto Imanência é resultado da parceria entre o Raiz Forte e o Macunaímãs e conta com recursos do Fundo Estadual de Cultura do Espírito Santo, por meio de projeto contemplado pelo Edital nº 002/2016 – Valorização da Diversidade Cultural, e apoio da Secretaria de Estado de Direitos Humanos, Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (Neab-Ufes) e do Programa Afro-Diáspora, da Universitária FM 104.7.

 

Exposição Imanência

Até 20 de maio

De quarta-feira a sábado, das 8h às 12h e das 14h às 18h

Local: Raiz Forte Espaço de Criação – Escadaria do Rosário – Centro – Vitória

Entrada gratuita e aberta ao público em geral

Para agendamento de turmas: https://goo.gl/forms/XCeqp4nBz5aqv6m52

Mais informações: imanencia.art.br

 

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