Da Raiz ao último cacho

 

Por Mariana Emiliano

Falar de identidade negra é navegar para um oceano chamado Ancestralidade. Todos que

se deparam com a temida pergunta sobre “quem você é?”, mais cedo ou mais tarde

precisam encarar suas origens, seus antepassados e suas histórias. Descobrir a realidade

de nossos pais, avós, bisavós nem sempre nos encanta. Principalmente a nós, negros e

negras, contaram histórias de dor, sofrimento e humilhação que rejeitamos, obviamente,

porque ninguém, em sã consciência, quer herdar misérias e tristezas. Mas também há

histórias de conquistas, amores e muita beleza, que descobrimos a cada dia um pouco

mais. Estas trazem orgulho e, mais do que isso, permitem que conheçamos nossas

histórias em todas as suas subjetividades, devolvem-nos a humanidade de ser e sentir

como todo humano – belo por si só, complexo em sua essência.

A cada pedaço de vida que recolhemos nos baús das memórias guardadas, escondidas,

quase esquecidas, encontramos uma parte de nós mesmos. Diz a sabedoria africana que

ninguém começa nada e ninguém termina nada sozinho, tudo vem de algum lugar e

continua para além de cada pessoa. Acreditando que a vida seja mesmo esse fluxo

constante de idas e vindas, coisas, sentimentos, emoções e pensamentos que voam soltos

pelo tempo-espaço infinito, penso que somos todos isso: uma frase no livro da humanidade,

uma vírgula, um verso solto no universo, herdeiro de palavras anciãs, ancestral de verbos

que virão. Assim, a negritude inscrita naqueles que vieram antes de mim está escrita na

minha pele, no meu cabelo, na minha boca e nas minhas emoções. Ao contrário do que

dizem, eu não nasci sozinha. Quando encarnei, vieram comigo todas as mães negras, as

filhas, as avós e as avós das minhas avós. Choraram no meu choro todas essas mulheres

que já morreram e as que ainda virão. Quando falo, elas falam em mim. Quando danço,

todas dançam em mim. De cada dor que me curo, um pouco delas se cura em mim.

Em meu corpo estão desenhadas marcas da formação de um país. Nele se misturam cores,

genéticas e tradições de diferentes povos. Mas o corpo que represento é o corpo negro,

contador de histórias, falador que atravessa minhas palavras e me descreve em dança, em

gesto, em movimento. Este meu corpo – ser incontornável – possui suas próprias linguagens

aprendidas nas estratégias negras de sobrevivência: cantar, rezar, dançar, tocar…

Impossível fazer o corpo esquecer! Então, ele lembra e me conta sobre o que nunca ouvi

dizer. Corpo que se faz árvore, buscando em suas raízes profundas o alimento para a folha

presente. Árvore que dá vida, que renova suas flores como se renovam os fios de nossos

cabelos…

Falar de identidade negra é descobrir-se árvore, dessas enormes, de troncos largos e

raízes muito, muito profundas. É descobrir-se um corpo raiz, que busca compreender-se a

partir de sua ancestralidade negra e desenha nos seus cachos encrespados novas formas

de sentir, pensar e ver o mundo, conectadas à força da raiz que nos alimenta e nos faz

viver.

Um salve às nossa raízes!

Um salve aos homens e mulheres de Raiz Forte!

 

http://https://flic.kr/p/CPW4jZ

Mineira de Nova Era, Mariana Emiliano é artista de nascença e antropóloga por curiosidade.

Entendida das culturas tradicionais negras, devota da Dança e de Nossa Senhora do

Rosário, formou-se em Artes e doutorou-se em Antropologia. Mesmo encarnando nessa

vida com o intuito de só dançar, permite-se fazer outras coisas como escrever, atuar,

educar e discutir questões étnico-raciais. Seu projeto Corpo Raiz pesquisa o corpo, as

corporalidades e o movimento enquanto forma de expressão, cura e transformação.

Contatos: mariana.corporaiz@gmail.com

mari.emilianosimoes@gmail.com

https://www.facebook.com/marianasimmoes

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